quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Chefes e portas

Trabalhei alguns anos numa empresa editora de jornais e revistas, líder de mercado. Eu e os meus colegas tínhamos orgulho em pertencer a tal empresa. Trabalhávamos muito. Éramos oito e tratávamos de rever todos os textos da publicidade que o jornal facturava. Não podia haver erros sob pena de não se poder cobrar o anúncio. E eles eram milhares. E no fim do dia, nós ficávamos até tontos de tanto ler. Mas apesar de sermos líderes de mercado, um dia a administração comunicou que estaria aberta a compradores da empresa... Ficámos preocupados.

À boca-pequena, um rumor espalhava-se pela empresa: «A tendência do futuro era de descida das vendas e tinha-se de fazer uma reestruturação completa. Mas os administradores, com idades superiores a 60 anos, preferiam mais vender do que fazer a tal reestruturação, pois iam arranjar muitas inimizades e era um processo emocional algo violento.»

Um dia, porém, compreendemos o porquê da necessidade de reestruturação... e o porquê de ser melhor vender. O chefe da nossa área, que tinha sob a sua responsabilidade cerca de 25 pessoas, abriu a porta do nosso departamento envidraçado, situado no centro de um sector gráfico, onde o ruído era uma constante, e, de cócoras, começou a desencaixar a porta dos gonzos. Perplexos, perguntámos o que estava a fazer. Resposta: «Vão ficar sem porta». E respondemos: «Mas e o barulho que vem daí de fora? Como é que se faz revisão de texto com ruído? Olhe que isto é dinheiro e qualquer falha sai cara» E o chefe: «Pois é, mas só os chefes é que têm portas a partir d'agora. Foi decidido com a direcção.»

E pronto, ficou decidido que os únicos dois gabinetes com portas eram os dos chefes. O de revisão, o de fotografia e o do fecho de jornal ficaram sem portas.
Três meses depois saí por iniciativa própria. Cerca de seis meses após a empresa foi vendida. A visão tinha realmente deixado de ser vendas, trabalho perfeito, equipa motivada, liderança de mercado. Estava-se num impasse, e rapidamente o focus se virou ainda mais para dentro, para o sistema de poderes, para o statu. É rocambolesco, patético mesmo. Representa, muito simplesmente, que se está a perder algo de essencial. A visão.
Só os chefes é que têm portas... Adivinha-se alguma vaidade nesta situação: «Eu na minha empresa tenho porta. Sou chefe.» Imaginam?...
Ah, já agora, este chefe hoje não tem porta... nem gabinete sequer, mas o novo proprietário decidiu que os departamentos deviam ter... portas. Irónico, não acham?