terça-feira, 27 de abril de 2010

O chefe da chave (parte II)

O mesmo «chefe da disquete» do post anterior era também «chefe da chave». Da chave do automóvel de serviço da empresa. Estava à sua guarda e quando era necessário tinha de se lhe formular o pedido. Para que ele cedesse a chave. Era assim que funcionava, pois o proprietário da empresa, o patrão, havia decidido assim.

O chefe não sabia conduzir, tinha falhado o exame de código três vezes e ficara por aí. E mais, não sabia o que se passava na empresa, constituída por quatro departamentos distintos.
Simplesmente ignorava o Como, o Porquê, o Onde, Para Quem, Para Quê e o Quando. Mas chefiava... a chave. Recusava-a muitas vezes, hostilmente, e até a levava para casa para que não fosse utilizada, criando problemas inúmeros, resolvidos depois com o desenrolar enorme de mal-entendidos e burocracia, relatórios, trocas de mails, memorandos ao patrão e ao gerente. Nunca era dada razão ao chefe da chave, mas atribuíam-lhe sempre o zelo no interesse da empresa. Por isso desculpavam-no. E acabava sempre tudo na mesma. O chefe da chave era o chefe da chave e ponto final.

Um dia, o patrão resolveu pôr na rua uma dúzia de colaboradores. Assim, sem mais nem menos. Havia dificuldades financeiras graves. Tinha de se reduzir custos. O carro de serviço foi penhorado, as disquetes deixaram de ser utilizadas, as desnecessárias cópias A4 foram abolidas, em nome da contenção de custos. No departamento do chefe, começou-se a trabalhar via e-mail e em rede.

E, pasme-se, o chefe da chave deixou de poder mandar. Porquê? Porque os objectos sobre os quais recaía a sua autoridade, as disquetes, as cópias A4 e o carro de serviço, haviam desaparecido. Bem como as pessoas dos recados. Outras pessoas tomaram o seu lugar e menos dispendiosas por trabalharem à distância, em rede, por mail, sem cópias e sem disquetes.

E lá foi o chefe da chave na leva da dúzia. Dispensado. Já não era necessário. Já não havia nada para chefiar. Só pessoas e processos de trabalho, relações, desempenho e produtividade. Coisa que ele não dominava nem compreendia.

A hora tarda mas chega para todos os «chefes
das chaves», mesmo com o sacrifício de muitas vítimas