quarta-feira, 12 de maio de 2010

Deus é justo ou castigador?...

Li há pouco um livro que encontrei num alfarrabista de rua. Encontram-se sempre preciosidades em segunda mão. E por apenas 5 euros trouxe uma obra do rabi Harold S. Kushner, «Quando Acontecem Coisas Más às Pessoas Boas». Segundo informa na contracapa, foi «reeditado vezes sem conta nos últimos vinte anos».

Harold Kushner, é importante que se saiba, sentiu-se sempre compelido a ajudar os outros e levou a sua vida a fazer o bem, a ser correcto e exemplar, de acordo com as normas culturais e as regras inquestionáveis escritas na Bíblia.
O certo é que se sentiu «castigado» por Deus quando o seu filho nasceu com uma doença chamada de progéria. Um envelhecimento precoce levou Aaron à morte logo na adolescência. E Kushner questionou-se porque teria sido escolhido para ser castigado? Para ele aprender alguma coisa sobre compaixão? Mas sacrificaria Deus uma criança em nome da aprendizagem de outros?... Haveria um Deus castigador?

E não contarei mais. Direi apenas que devorei as 174 páginas em dois dias. O fenómeno é simples, tanto quanto a pergunta do próprio título... Afinal toda a gente se interroga porque é que as pessoas boas são castigadas, têm azares ou lhes acontecem coisas inacreditáveis, enquanto os «ímpios» parecem sair muitas vezes incólumes da odisseia da vida? A Bíblia fala dos justos e dos ímpios como se houvesse um desígnio que estivesse determinado para cada um, mas na verdade sentimos que o sofrimento é distribuído de forma… injusta.

Será que Deus escolhe os pobres para sofrer? E porque são os pobres pobres? E porque é que Deus decide quem tem… azar ou… sorte, sendo que cidadãos exemplares são sujeitos às mais duras provações e privações? Deus afinal é justo ou tem falhas de avaliação?

Bom, Kushner desvenda todas as explicações num ritmo alucinante de escrita sublime, simples e objectiva. Depois, a força do seu texto brota das suas palavras sentidas, de quem viveu um sofrimento atroz e passou o tempo a desvendar o seu significado.

Uma obra imperdível, diferente e que questiona as regras e os princípios instituídos com uma clareza e uma elegância ímpares. Impossível ficar indiferente.