segunda-feira, 17 de maio de 2010

Deus ou o mundo? Amigo do «boss» ou amigo da empresa? (parte II)

É melhor ser amigo de Deus ou do mundo? Na obra de Harold Kushner, mencionada num dos posts anteriores, o autor refere um episódio de Jacob, no capítulo 28 do Livro do Génesis.

Jacob deixa a casa dos pais depois de ter discutido com o pai e com o irmão. «… E viaja a pé com destino a Harã para viver com o seu tio Labão. Assustado e inexperiente, envergonhado daquilo que fez em casa e sem saber o que o futuro lhe reserva em casa de Labão, reza: “Se Deus estiver comigo nesta aventura, protegendo-me, dando-me que comer e que vestir, e se eu voltar a casa do meu pai são e salvo, então o Senhor será o meu único Deus. Dedicar-lhe-ei um altar e porei de parte um décimo de tudo quanto eu ganhar para Ele.”

Jacob, meio perdido na sua aventura, inseguro e assustado, opta por “subornar” Deus. Está preparado para compensar Deus por protegê-lo e fazê-lo prosperar, e aparentemente acredita num Deus cujos favores podem ser conquistados e cuja protecção pode ser comprada com promessas de oração, caridade e veneração exclusiva. A sua atitude, à semelhança de tantas outras pessoas hoje a braços com a doença ou o infortúnio, é expressa da seguinte forma:

“Por favor, meu Deus, faz com que isto corra bem e eu farei tudo o que quiseres. Deixarei de mentir, irei à igreja regularmente. É só dizeres o que queres, que eu faço, desde que me assegures isto.”

Quando não estamos pessoalmente envolvidos, podemos reconhecer a imaturidade desta atitude, e a imaturidade da visão de Deus que lhe subjaz. Não é imoral pensar desta maneira, mas é pouco correcto. Não é assim que o mundo funciona. As graças de Deus não estão à venda.»

(Na página 148 do livro, Kushner explica como, anos depois, Jacob se comporta de forma diferente. Aconselho vivamente a sua leitura.)

A crença de Jacob de que «subornando» Deus, fazendo tudo o que ele quisesse em troca da sua segurança é a mesma dos nossos congéneres «amigos do “boss”»: «Eu sou teu amigo, faço-te todos os favores que quiseres, pessoais ou não, e tu manténs-me aqui, com estatuto, de forma a eu orientar a minha vida. Se quiseres eu vou levar o teu carro à oficina, vou pôr a tua carta ao correio, compro o teu jornal de manhã. Se quiseres eu despeço o tipo de que não gostas, posso até provocar a situação para te resolver o problema. Mas em troca manténs-me aqui, que eu preciso de sustentar a minha família e de ser respeitado. Serei o teu braço direito.»

E assim lá passam os interesses do departamento ou da empresa para segundo plano, pois o que interessa mesmo é assegurar os serviços ao… «boss».