quinta-feira, 27 de maio de 2010

«O meu gabinete tem sempre a porta aberta»

Esta frase, tão repetida por quadros superiores com responsabilidades de liderança, é música para os ouvidos em 99% das vezes.

E voltamos à questão das portas. Contei há tempos uma história sobre as hierarquias, que marcavam a sua posição na organização por terem portas… nos gabinetes. Ter porta seria sinal de se ter poder de decisão.


Sempre se falou de chefias e de liderança, mas agora que o mundo foi abalado, viramo-nos violentamente para quem manda, quem dirige, quem regula, quem organiza, quem monitoriza. E principalmente porque estes parecem afinal não ter assumido de todo a responsabilidade. Continuam, isso sim, a programar novas decisões que acarretam sacrifícios enormes a quem principalmente pagou caro pelas decisões anteriores.

Quando há um descontentamento geral com as falhas de comunicação dos líderes, apressadamente afirmam: «Mas o meu gabinete tem sempre a porta aberta… Quem quiser falar comigo, pode fazê-lo, será sempre atendido.» Bonito, não é? Musical de mais para se acreditar. Até parece que há liberdade para comunicarmos. Que a interacção é franca, sincera e aberta. Que é fácil falar com os níveis hierarquicamente superiores…

Porque não se acredita nestas frases? Porque não é a porta que faz a diferença. O que conta é o comportamento e a atitude.
Se o director só fala e reúne com as hierarquias, chefias e pares, não olha nos olhos dos colaboradores, não sabe os seus nomes, atira um «boa-tarde» entre dentes, de pouco vale ter a porta do gabinete aberta. Ainda mais quando dentro desse gabinete a barreira da cadeira de encosto longo e a secretária presidencial asseguram a devida distância e definem os poderes.
A atitude de abertura começa na pessoa, na interacção, não na porta, não nos objectos.

Daí que a comunicação seja sempre formalizada, constrangida e ritualística, onde os resultados são previsíveis. O que se pode chamar de conversa burocrática. O que Lynda Gratton chama de conversa desidratada.
Em vez de dizer que o gabinete está aberto, tenha uma atitude de abertura com a equipa, não fale só com chefes e directores. Olhe as pessoas, cumprimente-as, interesse-se por elas, porque são elas também o coração da produtividade.