sexta-feira, 18 de junho de 2010

Afinal, para que servem as empresas?

Miguel Pina e Cunha, professor da Universidade Nova de Lisboa, escreve no «Jornal de Negócios» um artigo, citando Jeffrey Pfeffer, professor da Universidade de Stanford, sobre o papel real das empresas na vida das pessoas...

Qual a utilidade das empresas? Bom, elas dão dinheiro aos seus proprietários e pugnam por dar lucros aos seus accionistas. Porém, a par, grande parte delas assumem também responsabilidades ecológicas, que até é bom para a imagem. Mas o problema principal nunca foi assumido. Onde está a responsabilidade social? As empresas existem porque há pessoas, e para as pessoas. Hoje é muito visível e chocante a prioridade na contenção de custos. Onde recai?... Nas pessoas.

E escreve Pina e Cunha: «...Algumas empresas, pois, podem ser poluidoras sociais. E é tão ilegítimo poluir o ambiente como a sociedade.» O que quer dizer despedimentos em grande escala, terrorismo psicológico que leva ao suicídio e, na melhor das hipóteses, ao desenvolvimento de doenças do foro psicológico. Veja-se por exemplo quanto gastam os Serviços de Saúde com a depressão, a ansiedade, doenças coronárias, fobias, o stresse, o esgotamento, etc.
E continua Pina e Cunha: «Desde logo, a empresa polui quando os gestores assumem que o seu único dever enquanto profissionais é o de aproveitar oportunidades de mercado e criar valor para o accionista (...) Em segundo lugar, a empresa polui quando as suas decisões estritamente económicas desconsideram outras dimensões. Por exemplo, a deslocalização de uma unidade produtiva pode ser necessária e inevitável, mas contém custos sociais que não devem ser desconsiderados.»

E que responsabilidade têm as empresas e os seus gestores e accionistas nos suicídios na France Telecom e há pouco na China, num fenómeno chamado de sweatshop. Trabalha-se 12 horas, sem condições, sem folgas, com salários abaixo do simbólico... Afinal, não são tratados como pessoas, mas sim como... recursos... humanos.

Pina e Cunha lembra que a era desta nobre expressão, Recursos Humanos, está a terminar, convidando a uma experiência: «Refira-se a alguém trocando "pessoa" por "recurso humano": "Chefe, está aqui um recurso humano a pedir para falar consigo".»

Os ventos de mudança avançam, as vítimas parecem crescer às mãos dos predadores económicos e financeiros e as pessoas enterrogam-se: Afinal, para que servem as empresas?