quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Há que ter vergonha e algum pudor

Uma página triste no Jornal de Negócios de 5 de Agosto. O «patrão dos patrões» do calçado em Portugal queixa-se que não arranja funcionários para as suas quatro fábricas. Que o absentismo é mais do que muito, rondando os 10%. E que das duas funcionárias contratadas há pouco, uma não apareceu, a outra trabalhou 2 dias e desapareceu. Mais: das 10 pessoas (salvo erro) recrutadas do centro de emprego só duas estão lá, pois as outras não quiseram continuar.
A acompanhar este rol de queixas, três detalhes: 1) Uma foto do senhor, que reproduzo acima. Impante, relógio de ouro? Dominador. 2) Tem cerca de 50 milhões de euros de lucro por ano. 3) Utiliza a expressão «Não há ambição para o trabalho» em Portugal.

Parece que, como escreve o jornal, «a Fortunato Frederico, patrão dos patrões da indústria portuguesa de calçado, começa a faltar paciência para o crónico problema de falta de mão-de-obra nas suas quatro fábricas».
Pois vai ter que ter mais paciência e comprá-la.

Ao artigo faltam os porquês de tal situação. Porque não arranja quem queira trabalhar?
1) Porque não é atractivo para ninguém. 2) Não acrescenta valor. 3) O senhor baseia a sua produção no ordenado mínimo, 475 euros, com horários, condições e cargas de trabalho desumanas. E revolta-se, queixando-se, que as pessoas não têm ambição.

Note, senhor Fortunato, quem trabalha para si talvez já não tenha ambição. Os que fogem de si ou recusam o que o senhor tem para «oferecer», esses, garanto-lhe, têm muita ambição. Querem trabalhar com e para pessoas dignas, que os respeitem.
As razões são sempre «as pessoas não querem trabalhar». E assim se vai encobrindo o verdadeiro problema:
As pessoas não querem trabalhar para certas pessoas, numas certas condições, em determinadas circunstâncias. Porquê? Porque as pessoas evoluíram, e não pretendem continuar a trabalhar para «patrões» parados no tempo, à espera que a escravatura se mantenha, mesmo agora, em tempos de crise. E a enriquecer arrogantemente à custa do mal dos outros. Seja rico, mas não perca a vergonha e, já agora, tenha algum pudor quando fala.