quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O Alfaiate e o Tesouro de Bresa

Uma história antiga conta que na Babilónia vivia Enedim, um alfaiate muito pobre. O homem trabalhava arduamente e também por isso era respeitado e estimado no sítio onde morava. Ano após ano, mês após mês, semana após semana e dia após dia, o alfaiate cortava e costurava a roupa dos clientes dia e noite.

Apesar de muito pobre, Enedim mantinha a esperança de um dia ser muito rico. Só não sabia qual seria o caminho, o que fazer para ficar rico. Se havia gente que encontrava tesouros, como havia ele de fazer o mesmo?
Um dia, quando mais uma vez matutava neste sonho, surgiu à sua porta um mercador grego que vendia tapetes, imagens, pedras outros artefactos. Perdeu-se Enedim na sua análise às bugigangas do mercador até que a sua atenção se concentrou num livro estranho, com caracteres desconhecidos e muitas páginas. O mercador apressou-se a assegurar-lhe que era uma preciosidade e lhe venderia aquela obra por 3 dinares. Era muito dinheiro para o alfaiate. Porém, perante tal raridade e obra tão peculiar, Enedim propôs adquiri-lo apenas com os 2 dinares que possuía. O mercador aceitou logo, afirmando que por aquele preço «era quase de graça».

Recolheu-se o alfaiate para examinar tão exótica aquisição. Parecia não perceber nada, mas, qual não foi o seu espanto quando conseguiu decifrar o título do livro: «O Segredo do Tesouro de Bresa». «Hummmmm. Certamente que aquele livro o conduziria à descoberta do tesouro sonhado», pensou. Não era por acaso que o mercador havia surgido com aquela obra. E continuou a decifrar mais algumas palavras: «O tesouro de Bresa, enterrado pelo génio com o mesmo nome nas montanhas do Harbatol, foi ali esquecido, e ali se acha ainda, até que alguém venha a encontrá-lo.» Uiiiii. O coração do alfaiate pulava de excitação e esperança. «Onde ficariam essas montanhas de Harbatol? Tenho de decifrar tudo para chegar a este tesouro», pensava Henedim.

E assim se lançou ao trabalho. Aquela obra estava escrita em línguas de vários povos, caracteres desconhecidos para o alfaiate, e Enedim foi então obrigado a estudar os hieróglifos egípcios, a língua dos gregos, a dos persas e a dos judeus…

Ao fim de 3 anos e subitamente, Enedim era convidado pelo rei para ser o seu intérprete, face aos seus conhecimentos sobre tantos idiomas. Abandonando a actividade de alfaiate, o ex-alfaiate via-se assim agora a morar numa grande casa, com muitos criados, tinha um gordo rendimento e era respeitado por todos os nobres, que o saudavam educadamente assim que o viam.

Mas como o livro ainda não estava todo decifrado, Enedim continuou o seu empreendimento, na esperança de vir a encontrar a verdadeira riqueza e abastança. Agora, havia chegado ao capítulo dos cálculos, o que o obrigou a estudar matemática com os melhores professores da cidade.
Algum tempo depois, Enedim sabia tanto de matemática que se entregou ao cálculo, design e construção de uma ponte sobre o Eufrates. O rei ficou tão satisfeito com a obra que o nomeou representante da região. O ex-alfaiate era agora um notável da sua cidade, gozando das vantagens associadas a tal cargo: dinheiro, casa maior, mais criados, mais respeito e poder.

Porém, trabalhador e esforçado como era, Enedim empreendia novamente no excêntrico livro para chegar à verdadeira riqueza, a independência total. E pôs-se a decifrar outro capítulo que o levou a estudar religião e as leis do seu país.
Com esses novos conhecimentos, Enedim conseguia assim por direito próprio um lugar entre os intelectuais da sua cidade, adquirindo o estatuto de doutor. Que, por sua vez e perante a sua obra e trabalho, levou o rei a nomeá-lo de primeiro-ministro.

Enedim vivia agora num luxuoso palácio e recebia até visitas de nobres poderosos de todo o mundo. Nesse cargo, o ex-alfaiate pôs em prática os seus conhecimentos e o país desenvolveu-se económica e socialmente. Enedim ganhava agora cerca de 1000 moedas por dia, no seu palácio havia jóias e pérolas de enorme valor.
Mas a felicidade de Enedim não correspondia à sua abastança. Por mais que se esforçasse, não conseguia decifrar a mensagem que aquele livro continha. Afinal, onde estava o tal tesouro? Era um mistério que deixava Enedim desapontado.

Certo dia, um velho sacerdote conversava com Enedim e este, não resistindo, contou-lhe a sua frustração. O mistério do livro não desvendado. O sacerdote riu-se, e depois de um breve silêncio, disse-lhe:
«Estimado Enedim, o tesouro de Bresa já está em vosso poder. Graças a esse livro misterioso adquiristes um grande conhecimento que vos conduziu à riqueza e abastança em que vives.»
Para que se saiba, Bresa quer dizer «saber», e Harbatol «trabalho». Portanto, com estudo e trabalho pode o homem conquistar tesouros maiores do que os achados ou descobertos.

Autor anónimo
(compilado por Jorge Dias)