sábado, 9 de outubro de 2010

O país é o que as pessoas acreditam que o país é

Karl Weick é professor de psicologia organizacional na Universidade do Michigan, EUA, e é autor da melhor definição de cultura organizacional que conheço:
«A configuração que uma organização toma (design organizacional) é o que as pessoas acreditam que a organização é, e o que as pessoas acreditam que a organização é constitui a base para o que as pessoas fazem, e o que as pessoas fazem nas organizações é, com efeito, o design da organização». 

Karl Weick
Como o país, sem risco de ser mal comparado, é a maior organização que temos, e é gerida por pessoas que definem regras que regulam o comportamento humano, então teremos o seguinte:

«A configuração que um país toma é o que as pessoas acreditam que o país é, e o que as pessoa acreditam que o país é constitui a base para o que as pessoas fazem, e o que as pessoas fazem no país é, com efeito, o clima, a cultura do país.»

Em Portugal temos uma crise cultural agora profunda nos comportamentos agora produnda. Principalmente dos que determinam a cultura e o clima vivido no país. Quem está no topo dá o exemplo e fornece à cadeia alimentar as bases da atitude e de como tudo funciona. O que é tolerado, permitido, punido, ético ou não, e por aí fora.

Leiam-se os jornais, oiçam-se as pessoas nos cafés, na rua, em entrevistas de TV, em encontros de amigos, em situações formais ou informais. E o que temos? Um clima de descrença e desdém pela classe política que Portugal construiu durante estes anos todos. As frases demasiadamente ouvidas serão do tipo «São todos uns gatunos», «Eles é que se safam, é só roubar», «Os políticos são todos mentirosos», «São uma cambada de ignorantes», «Só se promovem a eles e aos amigos», «Não querem saber do país», «Nunca trabalharam a sério na vida», «São gente desonesta». E muito mais havia a reproduzir. Não me lembro de algo positivo que seja dito. Lembro-me de expressões menos más, mas mais ao jeito de «água na fervura», apenas para amansar tanta tristeza e vergonha.

E voltamos à definição originária de Weick: o que as pessoas acreditam que a classe política é determina o que fazem ou a intenção de o fazer. Daí que desabafem meio desbragadamente: «Se eu puder fugir aos impostos, ah isso é logo», «Gostava de sair do país», que é das mais tristes e recorrentes afirmações que se fazem. «Era bom era reformar-me já, se fosse possível», que é outra bem ilustrativa de como está o país e o mundo do trabalho aqui, em ambiente e em remuneração.

Estamos, pois, perante um colapso moral. Uma crise de honestidade e de moralidade que ainda não sabemos como vai terminar. É uma curiosidade que mantenho. Consequências financeiras graves, isso já sabemos. Mas como vão ser as regras e os valores de vivência e convivência daqui para a frente? Aquilo que os pais nos ensinam será válido? A moralidade ensinada nos livros bíblicos será para seguir?

Pergunta final: O que será neste momento paradoxal em relação a quê? Os princípios que nos ensinaram ou o comportamento actual? Será o primeiro em relação ao segundo ou vice-versa?