segunda-feira, 8 de novembro de 2010

«Se eu mandasse!!». Um recuo evolutivo

Recuo evolutivo, à semelhança do «Crescimento Negativo», é como defino um dos maiores e mais populares clichés empresariais: «SE EU MANDASSE!!»

Em 30 anos de trabalho, a muita gente ouvi sair-lhe da boca a sua vontade de «MANDAR». Até aqui tudo bem, mas vejamos o intuito anunciado:

- «Se eu mandasse, punha-os todos na linha»
- «Se eu mandasse, despedia aquele tipo e o outro ali daquele departamento…»
- «Ai se eu mandasse, haviam de saber como era!!...»
- «Se eu mandasse, acabava com muita coisa aqui»

Raras vezes ouvi ideias sobre organização, processos de trabalho, regulação de comportamentos, produtividade e performance das equipas.
É lamentável esta pretensão de «pôr tudo na ordem» ou «na linha», como se esta figura de estilo de enfileiramento alinhado fosse sinónimo de produtividade.
Dizem os livros e os experts em liderança: a primeira condição para se ser manager ou líder é estar disponível e querer sê-lo.

Muito bem. Concordo. E o «porquê»?
- «Porque é que queres mandar, ser chefe ou director?»
- «Para que queres ser…?»
- «O que fazias se?...»
Como, porquê e para quê?

Neste meu percurso tive oportunidade de trabalhar em empresas grandes, pequenas e médias, todas elas líderes de mercado na indústria química e na imprensa. O que fui vendo como padrão foi que as chefias, na sua maior parte, eram escolhidas e propostas a partir de pressupostos bizarros. Mas que se tornaram como que uma tradição. É claro que os resultados em todas as situações foram de perda de competitividade. E o resultado final foi a venda ou até o fecho da companhia.

E porquê? porque estas chefias são-no porque são família de alguém na empresa, ou porque se tornam amigos de alguma hierarquia, ou porque frequentam a casa de alguém influente ou até porque se prestam a fornecer informações «preciosas», fofocando sobre as equipas. Ou ainda porque são tão simpáticos e prestáveis que se disponibilizam a executar favores pessoais.
A protecção chega a quem vai comprar a comida para o cão do patrão. Vai pagar a luz e a água da residência do director. Vai comprar aquela fruta biológica para a alimentação regrada do administrador. Vai pôr o carro à revisão por falta de tempo do chefe. Enfim, uma infinidade de favores convenientes que podem manter um incompetente num lugar de chefia.

E neste departamento é caso para repensar tudo. Para mim, esta realidade ainda tão evidente representa a frágil condição emocional do homem, que conduz a uma espécie de recuo evolutivo. À semelhança do famoso, estranho e bizarro «crescimento negativo», se é que tem significado.

Está tudo estudado, está tudo publicado, está tudo divulgado. Mas continua-se com estas fraquezas humanas muito expostas.
Não há como acabar com isto, temos de lidar com esta situação e apenas tentar amenizá-la, com o tempo. Por outro lado, esta crise profunda e moderna talvez regule naturalmente alguma desta disfuncionalidade. A lei natural imperará sobre a lei do homem se este não intervém atempada e antecipadamente.