quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A cabrinha do Sr. Séguin tomou uma decisão

A história da Cabra do Sr. Séguin, de Alphonse Daudet, alerta-nos para uma realidade dual. Certa ou errada, qualquer uma delas depende da nossa escolha. Será mau escolher a via das restrições, dos condicionamentos e das limitações mas ao mesmo tempo da segurança, do recato, da rotina e da estabilidade? Ou será mau escolher a via da liberdade, das alternativas e das hipóteses mas ao mesmo tempo da insegurança, da aventura e da diversidade? A cabra do sr. Séguin escolheu um caminho, tal qual as suas antecessoras. Aceitam-se opiniões.

A cabra vivia em completa segurança, bem alimentada, protegida das agruras da própria existência. É certo que não tinha espaço para correr, não tinha acesso à diversidade da vida, mas ela tinha tudo o que necessitava para viver tranquilamente. Ainda por cima um dono que a tratava bem, que lhe tirava o leite e que gostava muito dela. «Era um amor de cabrinha, dócil, carinhosa, deixando-se ordenhar sem se agitar, sem meter os pés no balde.»
Até que um dia se pôs a olhar a montanha e percebeu que o mundo e a vida não acabava ali. Havia muito mais a descobrir. E pôs-se a pensar como se devia estar bem lá em cima! saltar entre a vegetação, sem a maldita corda que esfolava o pescoço!...
«A partir desse momento a erva do cercado pareceu-lhe insípida. Sobreveio-lhe o tédio. Emagreceu. O leite diminuiu. Dava dó vê-la arrastar a corda o dia inteiro, a cabeça voltada para o lado da montanha, a venta aberta, fazendo “mé”... tristemente.» E disse ao dono aquando da ordenha: «Sr. Séguin, eu enlangueço em sua casa, deixe-me ir à montanha.»
O homem entonteceu, enfureceu-se, admirou-se com aquela pretensão. Ofereceu à cabrinha um pouco mais de pasto alargando-lhe a corda, procurou saber o que lhe faltava, mas a cabrinha: «Quero ir para a montanha, Sr. Séguin.»

E o seu dono passou a uma segunda estratégia. A do medo. «Mas, desgraçada, tu não sabes que há o lobo na montanha? Que farás quando ele vier? O lobo pouco se importa com os teus chifres. Ele comeu cabritas muito mais chifrudas do que tu...
E a cabra insistia: «Isso não importa, Sr. Séguin, deixe-me ir à montanha.»

Como o aliciamento e o medo não resultaram, então veio a posição de força: «Pois bem, não... Eu te salvarei, a teu pesar, velhaca! E, porque receio que rompas a corda, vou fechar-te no estábulo, e ali ficarás sempre.» O problema é que se esqueceu de uma janela aberta (porque afinal há sempre uma janela...). E a cabrinha lá foi...

Como a cabra ficou feliz! Nada de corda, nada de canga... nada que a impedisse de pular, de pastar à sua maneira... E quanta erva havia lá! Até lhe ultrapassava os chifres, e que erva! Saborosa, fina, recortada, feita de mil plantas... Era muito diferente do capim do cercado. E as flores, toda uma floresta de flores selvagens, a cabra espojava-se com as pernas para o ar e rolava ao longo das encostas.

«Até um jovem gamo de pelagem negra teve a sorte de agradar a Branquinha. Os dois namorados se perderam entre o bosque, durante uma ou duas horas. De repente o vento esfriou. A montanha tornou-se violeta. Era a noite... E com ela o lobo, Uuuuu! Uuuuu!

Lá em baixo, a trompa do Sr. Séguin gritava num último apelo para que a cabrinha voltasse... Branquinha teve vontade de voltar, mas lembrando-se da canga, da corda, da cerca do curral, pensou que já agora não mais se podia afazer àquela vida, e que era melhor ficar. A trompa não soou mais...
A cabra ouviu atrás de si um rumor de folhas. Voltou-se, e viu na sombra duas orelhas curtas, muito direitas, com dois olhos que reluziam... Era o lobo. (...)
Então o monstro avançou, e os pequenos chifres começaram a dança.
Ah! a valente cabrinha, como lutava com todas as forças! Uma após outra, Branquinha redobrou as chifradas, o lobo as dentadas...
Até que a cabrinha, exausta de tanta luta para resistir, ela própria se estendeu por terra toda malhada de sangue... Aí o lobo atirou-se sobre a cabrinha e a devorou.