quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Empresa Tóxica - Take 2


«Ponha-o na prateleira»


Um dia, o administrador da editora ligou-me e disse: «Esse tipo aí... o XXXXX, ponha esse tipo a fazer nada. Desligue-lhe o computador e não lhe dê páginas para fazer. Não quero esse indivíduo a fazer nada.»

O «tipo» era colaborador do meu departamento, tinha um desempenho abaixo da média, pelo que eu já havia feito tudo para mudar a situação. Goradas todas as hipóteses, tinha comunicado à administração o facto e solicitei uma solução definitiva.
A resposta foi a do primeiro parágrafo. A administração queria que eu pusesse o indivíduo a fazer nada, à frente do computador, sem acesso à internet e sem trabalho.
Que fiz eu? Respondi o seguinte: «Desculpe mas não posso fazer tal coisa. Não vou colocar um indivíduo sem nada fazer, pois vai ser mau exemplo para os outros. Mais, o trabalho que ele devia fazer passa para nós, e não é justo estar uma pessoa a receber salário sem nada fazer e não assumindo qualquer responsabilidade.»

Fez-se silêncio do outro lado da linha. Segundos depois a voz soou: «Então resolva você, e se esse tipo cometer mais erros no jornal, vou responsabilizá-lo a si.»
Sem o apoio da administração, parti para uma solução de recurso: retirei ao «tipo» as tarefas de responsabilidade, minimizando a probabilidade de erro, restringindo-o também nalgumas benesses que usufruia no horário para que não ficasse em vantagem em relação aos outros. Mas continuou a trabalhar com todas as condições necessárias. Não permiti exclusões, marginalizações ou evitamentos.

Nunca compreendi como é que um administrador e proprietário aceita que na sua própria empresa indivíduos estejam na «prateleira», sem nada produzir, mas a receber salário e a subtrair valor ao seu produto e à sua estrutura. Na verdade, é algo patético. Porém, confesso, sinto que em Portugal é um pão-nosso-de-cada-dia. Pôr gente na «prateleira» é algo realmente hediondo.

Quanto à situação descrita, acabou por resolver-se por ela própria. A empresa está em colapso, depois da saída de mais de uma dúzia de colaboradores. Saí entretanto para abraçar novos projectos, mas essa empresa ainda existe, com uma pequena estrutura que dificilmente resiste no mercado. Mesmo assim, parece continuar a reproduzir o mesmo tipo de decisões...