terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Empresa Tóxica - Take 4


«QUEM É QUE FEZ ESTA PORCARIA?...»


Berros e impropérios. Muito comum em locais onde a afirmação pessoal de poder é determinada pelo ruído que se faz. Quem fizer mais ruído é o mais poderoso. «É SEMPRE A MESMA COISA...», «É PRECISO DIZER ISTO OUTRA VEZ?...», «QUEM FEZ ESTA PORCARIA?», «QUANDO É QUE ME ENTREGAS O TEXTO?...»

E quando me lembro destas episódicas frases gritadas que ouvi tantas vezes lembro-me da velha história do pai que passeia pelo campo com o filho, e que de súbito pergunta:

- Filho, que barulho é este que se ouve ao longe?
- É uma carroça, pai.
- Muito bem. E a carroça vai cheia ou vai vazia?
- Vai cheia, pai, vai cheia.
- Porque dizes que vai cheia, filho?
- Porque faz muito barulho, pai...
- Não, filho, é uma carroça vazia.
- Como sabe que a carroça está vazia, se não a está a ver?
- Filho, a carroça está vazia por causa do barulho. Quanto mais vazia a carroça, maior é o barulho que faz.

O rapazinho tornou-se adulto e não mais esqueceu tal episódio. E agora, quando vê uma pessoa a falar demais, a gritar, com prepotência ou/e a interromper toda a gente, como que numa exigência de razão, lembra-se: «Quanto mais vazia a carroça, mais barulho ela faz...»

Pois, mas a verdade é que mesmo sabendo esta lição, o ruído continua a incomodar, a energia emanada de uma pessoa descontrolada invade-nos e perturba-nos. E quando ameaça a nossa sobrevivência, ainda pior.
Sendo a ideia de caos sempre grata a quem quer manter o poder, berrar afigura-se a grande solução chamando a atenção sobre os outros. Se se somarem deambulações bruscas, gestos nervosos e expressões de inconformismo, está criada a atmosfera de medo, de horror, humilhação e submissão.

A criatividade é incompatível com esta atmosfera. A inovação idem. Bem como o desempenho excelente. Trabalhei em várias empresas em que a «cultura do berro» imperava. Todas elas estagnaram no seu negócio ou definharam. Algumas foram vendidas, outras, pura e simplesmente, desapareceram.