quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Empresa Tóxica - Take 5


«Vai lá abaixo e traz-me um maço de tabaco!…»


É a afirmação do poder em absoluto. Inquestionável. O chefe manda, o chefe controla, o chefe é o chefe e vai lá fazer um recado ao chefe:

«Compra-me ali no quiosque a revista do costume… Toma lá o dinheiro!»
«Vai lá ao 2.º andar levar estas folhas»
«Vai ali aos correios pôr-me esta carta…»
«Vai lá abaixo e traz-me um maço de tabaco!…»
«Podes ir à praça comprar-me alfaces biológicas?»
«Olha, vais à EDP e pagas-me esta factura de luz»

Quem precisa de sentir que tem poder, tem de pôr alguém ao seu serviço particular. O chefe que manda fazer recados pessoais domina. E mantém os seus colaboradores ocupados e subservientes. Uma recusa é o passaporte para a prateleira ou para a rua.

Estes managers são por norma algo limitados na sua capacidade de trabalho, pelo que se concentram amiúde nas tarefas menores, não permitindo qualquer criatividade. Ocupam os seus colaboradores com tarefas simples, rotineiras e nos... recados pessoais. A lealdade é reconhecida no favor. São essencialmente avaliadores, analistas do trabalho feito, destruindo ou reconstruindo qualquer iniciativa.

As empresas dos favores pessoais têm tendência a morrer, mas existem ainda em grande número. A competição interna é voraz e prende-se, claro, com favoritismos. A luta dá-se ao nível da preferência por quem faz mais favores. Quem estiver disponível sai em vantagem, com salário reforçado, menos trabalho e menos responsabilidade, gozando de mais complacência.

Pela minha experiência, assisti a competições renhidas pela preferência da administração. O trabalho passava a segundo plano, pois o desempenho, a produtividade e a pontualidade não eram valorizadores. Por outro lado, conseguir fazer um recado, um favor pessoal, era ficar nas boas-graças do patrão.

O que acontece a empresas deste tipo? Bom, internamente vai crescendo o fascínio e a luta tenaz pela preferência de quem manda. Só que... Bom, só que, à medida que esta tendência cresce, encolhe o negócio… Até um dia, quando se deixa de poder chamar de... negócio.