sábado, 22 de janeiro de 2011

Empresas Tóxicas - Take 3


«Só falo consigo»

Um velho hábito muito comum nas organizações. Durante alguns anos tive um director que tinha a exclusividade da comunicação com a administração. Como era eu que ficava responsável pelo departamento na sua ausência, muitas vezes estava presente nas reuniões ou encontros informais que ele tinha com o administrador. O que me dava acesso a grandes espectáculos de teatro. Aquilo era um chorrilho de mentiras, de deturpações, incorrecções e meias-verdades. E eu ficava perplexo com o descaramento.

As decisões eram tomadas de acordo com as «histórias» que este indivíduo transmitia ao administrador. Acerca da qualidade do jornal, de aquisição de novos produtos, mas principalmente do desempenho de pessoas. Os ataques eram cirúrgicos, requintados e minuciosos. E ali estava o eloquente e o crente administrador, que circulava pela sala, ouvindo o que o primeiro emitia. No final de cada encontro saíam sempre decisões ou esboços das mesmas.

A verdade é que a história se foi repetindo dia após dia, semana após semana, ano após ano, e não acabou bem. O director foi apanhado em falsidades e desonestidades e foi despedido num processo algo moroso. Muitos euros de prejuízos depois e também após tantas vítimas despedidas injusta e erradamente.

Numa conversa com o administrador, perguntei-lhe: «Porque não fala com toda a gente? É que se só falar com uma pessoa não terá hipótese de ver a realidade.» E ele responde-me: «Bom, Jorge, assim é mais fácil, e daqui para a frente possivelmente vou só falar consigo, pois é você que será o responsável.»

Ficar condicionado a uma pessoa é ficar condicionado na gestão, na percepção e na decisão. A sugestão que deixo é, se é responsável por qualquer área, comunique com várias pessoas e não só com a hierarquia. Se for uma grande empresa pode parecer menos fácil. Mas é possível. Se for uma pequena empresa, como o caso descrito, cerca de 25 pessoas, acredite que será mesmo fácil fazê-lo.