segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Quando os líderes acham que sabem tudo

Os verdadeiros líderes consideram a realidade no seu todo, evitando juízos de valor antecipados. Se querem feedback verdadeiro não excluem pedaços de realidade. Não são movidos nem pelo medo nem pela arrogância. E quando precisam da opinião dos seus colaboradores consideram válida a de todos, sem excepção. Mas a maior parte das vezes não é assim. Fazer diagnósticos organizacionais em empresas até podia ser mais fácil, não fossem as dificuldades criadas por quem os solicita. Que pensa que tudo sabe e que os resultados do diagnóstico são apenas a confirmação do seu conhecimento. Infelizmente.

Quando apliquei questionários de diagnóstico organizacional no sistema prisional português, algumas das pessoas perguntavam-me para quê tudo aquilo se a opinião delas não contava. A telefonista de um estabelecimento pedia-me para se ir embora, porque «eles» não queriam saber da sua opinião. O pessoal de limpeza argumentava que estava a perder tempo pois ninguém queria saber o que diziam. Alguns guardas achavam tudo uma farsa. Enfim, percebi que aquelas pessoas não eram consideradas pelos seus líderes. Tinham já baixa auto-estima e os resultadas ameaçavam sofrer com esta realidade.

Noutra situação, fiz um trabalho para uma empresa da área industrial. Medição do clima organizacional, da motivação e do estilo de liderança. Entreguei questionários para cerca de 40 pessoas, divididos em 4 grupos: equipa administrativa, equipa de vendas, equipa operacional (operários) e líderes.
Quando um dos directores me entregou os questionários preenchidos para tratamento de dados, fiquei espantado, pois faltavam os da área operacional da empresa, constituída por 25 pessoas.

Explicação para este facto: «Não entregámos questionários a estas pessoas, porque a maior parte delas não saberiam preenchê-los. Sabe, são pessoas com pouca instrução académica, que não entendem as coisas. Íamo-nos meter num grande problema. Começavam logo a contestar e ficariam desconfiados. Faça o diagnóstico só com o resto.»

Pedir um diagnóstico e enviesá-lo desde logo, admitindo que parte das pessoas são limitadas e não têm direito à sua opinião sobre o trabalho e sobre a liderança é algo estranho, é mau investimento, e talvez um acto de arrogância. É uma aposta num clima disfuncional. Nestas situações, é melhor não fazer dignóstico algum porque, não sendo possível uma caracterização correcta, também não serão implementados as medidas de desenvolvimento adequadas.

Se se quer saber o que a empresa é, na realidade, a opinião de todos conta, sejam operários, administrativos ou quadros superiores. Melhorar a performance passa por não excluir, mas sim por caracterizar a realidade no seu todo.