sábado, 19 de fevereiro de 2011

Empresa Tóxica - Take 7


«Aqueles gajos lá em cima!...»
Quando as paredes têm a culpa


Ao que parece, o open space empresarial nasceu de duas necessidades. Primeiro, chegou-se à conclusão que criaria um espírito mais coeso, não sendo propenso à formação de grupos. Segundo, os custos inerentes à construção de divisórias autónomas.

A segunda, claro, é aceitável. Mas quanto à primeira razão, é discutível. A parte em que, por ter experiência do que são pequenos departamentos distribuídos por várias divisões e andares. Na verdade, a tendência é a empresa transformar-se numa colecção de bunkers em que cada departamento se vê rodeado de «inimigos» de quem tem de proteger-se.

O que precede o comportamento é o discurso. De cada vez que há coisas a tratar não raras vezes se ouvem coisas como estas (exemplos de uma empresa editora de publicações):
- «Aqueles gajos lá em cima acham que agora são uma prioridade». Os «gajos» são os colegas da redacção.
- «Mas quem é que estes tipos pensam que são?». Os «tipos» são os colegas da contabilidade.
- «Manda as páginas assim, eles que se desenrasquem». «Eles» são os colegas da publicidade.
- «Estes gajos fazem tantas emendas, só para nos lixar o trabalho!...». Mais uma vez, os «gajos» são os colegas jornalistas.
- «Esta gente não está cá fazer nada. Querem pôr-nos em causa, é o que é». A «gente» são os colegas do departamento gráfico.

E o registo passa a ser este, dia após dia, semana após semana, mês após mês, num ritmo tóxico altamente corrosivo. Porém, apesar de reconhecer que o espaço geográfico e a ergonomia empresarial potenciam este tipo de discurso e comportamentos beligerantes, para mim o problema reside sempre na liderança. Começando pelo topo, pelo proprietário, seguindo-se para a gerência e logo de seguida as direcções e chefias. Sem política de recursos humanos específica actuante na cultura e no clima organizacional, não há open space que resista.

Não culpem as paredes pelo clima disfuncional. Se não se sabe nem se tenta cultivar um ambiente produtivo, a razão não está nos tijolos ou nas divisórias. A origem do problema está nos líderes.