terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A grande qualidade que é ser «Picuinhas»

E quando as pessoas se gabam, se auto-elogiam, inumerando qualidades negativas? Estranho, não é? Uma dessas qualidades que ouvi algumas vezes dos proprietários de pequenas empresas resume-se a uma frase: «Olhe que eu sou muito picuinhas.»

Impantes, estes indivíduos acham-se o máximo, porque sempre encontram uma alteração a fazer no trabalho dos outros, um reparo, um pormenor perdido no «meio do mundo». Elogiam-se, apregoam esta sua qualidade de serem «picuinhas», que funciona também como uma espécie de aviso. Acham que ser «picuinhas» é ser rigoroso. O que fazer? Nada, eles são os donos, são eles que estabelecem as regras, são eles que mandam.

Picuinhas, meu Deus! Ser picuinhas é deixar escapar o essencial. E é prender a atenção com detalhes secundários. É como ir comprar um automóvel, ignorar as qualidades essenciais do dito, segurança, consumo, despesa, etc., mas perguntar «E tem buzina?». Mas vejamos alguns exemplos reais, que presenceei, ao vivo, nas editoras em que trabalhei. Ser picuinhas é:

>> É escrever «balisa» com «s», mas substituir «andar» por «caminhar». >> É pedir para «puxar o título mais para a esquerda», mas não ver no mesmo a gralha «oprações» em vez de «operações». >> É preocupar-se com uma conta de luz de 120 euros e pagar juros sobre 60.000 euros de dívida com uma gráfica. >> É exigir uma foto com 300 dpi em vez de uma de 250, mas ignorar o nome trocado do médico fotografado. >> É exigir que os colaboradores cumpram o horário das 9h, mas aparecer às 11h. >> É ficar irado/a com uma vírgula mal colocada, mas partir para uma semana de férias no arranque da empresa. >> É elogiar o produto sublinhando o seu sucesso, mas dizer ao cliente que «o mercado está muito mau, está difícil». >> É dever dois meses de renda do escritório mas comprar um cabide de 100 euros, um elefante esculpido de 150 euros e duas chaise longue de 700 euros para a sala de entrada.
Uff, Enfim. Acreditam que haveria bastantes mais exemplos a enumerar e sempre tão ou mais absurdos como os anteriores?

Esta qualidade de ser «picuinhas» tem que se lhe diga. E ainda há quem se elogie por o ser. Como se tal fosse sinónimo de sucesso e de inspiração.