quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O cumpridor, o obediente, o que faz a vénia

Uma história verdadeira. Seguramente não será única...
José é secretário do tesoureiro, que está prestes a reformar-se. José já vê o seu futuro como tesoureiro. É isso que ele quer, fazer carreira como tesoureiro. Está há mais de uma década na empresa, é um indivíduo obediente, cumpridor, um «bom administrativo». É prestativo, muito mesmo.

Quando o chairman o chama, lá vai ele a correr, serviçal. Bate à porta, entra, e vai avançando meio curvado, repetindo «boa-tarde, sr. engenheiro» a cada passo. Entrega, curvado, a documentação ao sr. engenheiro e, por entre sussurros, vai explicando «estes são para assinar, sr. engenheiro, e estes ficam para o sr. engenheiro». E o sr. engenheiro assina e devolve ao José. «Obrigado sr. engenheiro.» E retira-se, recuando, curvado, fazendo como que uma espécie de vénias sucessivas, e sussurando servilmente «obrigado, sr. engenheiro, boa-tarde, sr. engenheiro».

O José é tido como de confiança. É promovido a tesoureiro quando o colega se reforma. O José tem agora salário melhorado, tem posição, tem importância na empresa. É a pessoa de confiança do sr. engenheiro.

Três anos se passaram. Um dia é chamada uma equipa de consultores para avaliar umas discrepâncias nas contas da tesouraria. O José, a pessoa de confiança do sr. engenheiro e três anos antes promovido a tesoureiro, foge para Angola. Pouco depois de aterrar em Luanda, já em Lisboa se sabe que o desfalque é de cerca de 70.000 euros.

Moral da história. Desconfie sempre e muito de quem faz vénias. E já agora de quem, fora do contexto, o elogia muito, lhe passa a mão pelos ombros ou pelas costas. Deconfie dos sussurros e da... obediência. Uma pessoa obediente será uma pessoa perigosa? Não sei, mas eu prefiro acreditar que a subserviência sai cara. Quem é subserviente não é leal.