segunda-feira, 21 de março de 2011

Produtividade por zero ou por comida

Vem este post a propósito de um blogue recente surgido na rede, http://eu-nao-sou-rasca.blogspot.com/, que reproduz o que uma alarmante fatia das empresas faz actualmente para se manter e supostamente para subir os seus níveis de produtividade. Parece estar a emergir uma nova corrente de management, o «Investimento-Zero».

Discutem-se formas de atracção dos bons profissionais, estudam-se estratégias de recrutamento adequado, enumeram-se as regras remunerativas para sustentar o bom desempenho, debate-se a motivação como factor psicológico dramático para uma estrutura produtiva. E o que acontece? Recrutam-se pessoas para trabalhar a investimento zero ou por «comida». Este estranho fenómeno está a pôr em causa o que se aprende, estuda nas universidades de todo o mundo e se prova no mercado.

Ao mesmo tempo que se sabe o que é necessário para ser uma organização amigável, com alto grau de performance, há muitas organizações a pensar sobreviver a longo prazo com trabalho grátis. Nos jornais abundam aquilo a que chamo de minutas de recrutamento para atrair profissionais a investimento zero. Não são necessários profissionais de RH para recrutar. Basta a minuta.

O mais rocambolesco é que se exija, em anúncio de candidatura, experiência alargada e conhecimento de muito software, e até de programação. Não percebo ainda como pode uma empresa obter trabalho de qualidade sem nada dar em troca. Como pode um colaborador oferecer qualidade, inovação, criatividade a investimento zero. Quando esse crente «colaborador» sabe de antemão que está de passagem para dar lugar a outro crente «colaborador» para dar continuidade a uma nova era-do-investimento-zero.

Neste blogue há exemplos de empresas idóneas, como o Hotel Tivoli. O que me ocorre e que as autoras do http://eu-nao-sou-rasca.blogspot.com/ concluem é que estas empresas não têm dinheiro «para mandar cantar um cego», pelo que nem vale a pena ter esperança de alguma vez pertencer à sua «equipa». Outras há que ainda oferecem o subsídio de alimentação, que as autoras definem muito bem como «trabalhar por comida».

Uma dúvida me assalta: Será mesmo que, a breve trecho, vamos começar a trabalhar por comida? Um full-time contra subsídio de alimentação. Com um pouco de sorte, uma ajuda para o transporte?

Uma pergunta final: A Lei portuguesa regulamenta esta situação. Não a aceita nem legitima. Mas onde está a Lei, na prática?