sábado, 9 de julho de 2011

Balzac e os funcionários. O Bajulador

Li algum Balzac depois de ter consumido cerca de quatro dezenas de obras de Camilo Castelo Branco. Estava nos meus 18 anos. Considero Camilo um criativo da linguagem, rico em adjectivos, descrições pormenorizadas, mordaz, irónico, sarcástico. Na minha modesta opinião, comparo Camilo a Balzac, se bem que este último teve vivência enriquecida no centro da Europa, em plena Paris, onde se inspirou nos tiques da alta sociedade.

Há uns meses fiquei perplexo quando nas bancas de uma livraria, o meu passeio preferido, encontro um Balzac diferente, «Os Funcionários» (título original: «Physiologie de L'employé»). Um livro editado pela Padrões Culturais Editora, que comete um crime literário ao publicar este livro como se tivessem atirado vírgulas como se de milho para as galinhas se tratasse. Onde caíram assim ficaram. Uma pena, ainda mais com tão pomposo nome de... Padrões Culturais. Enfim.

Honoré de Balzac descreve com mestria as características dos funcionários públicos da época, séc.XIX. E é arrepiante a parecença do retrato. Transcrevo aqui a do Bajulador, dedicado a todos os bajuladores funcionários, públicos ou privados.

«O Bajulador

Sempre medíocre, este funcionário sobrevive à custa dos serviços que presta e do terror que espalha. Linguareiro com os chefes de departamento e de divisão, estuda-os e conquista a sua confiança. Acaba por lhes conhecer os gostos e os seus caprichos. Presta-lhes todo o tipo de serviços e conta-lhes tudo o que se passa nos gabinetes.
E se ainda assim continua, apesar do desprezo que inspira, é apenas porque é indispensável e conhece demasiados segredos. E se a esta enorme fraude associarmos um pouquinho de talento ou de ambição, acaba facilmente por ser promovido. Costuma ser dedicado e nem se importa de ser desprezado ou ignorado, suportando as consequências dos seus atrevimentos com tal calma que ninguém compreende, nem de onde lhe vem o poder, nem a resignação. Acham-no desprezível mas estende-lhe a mão. Alcunham-no de jesuíta. Denuncia um pouco, espia muito, conta tudo: na verdade, não lhe escapa nada!»

Ora aí está uma característica da natureza humana que não se altera no tempo ou na circunstância. Todos nós a temos um pouco, o problema é o parâmetro, o nível em que se manifesta.