segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Equidade afinal é o quê?


Muito bom mesmo, o debate sucessivo sobre Equidade. Os políticos apregoam a palavra a torto e a direito. Mas o conceito adjacente afigura-se-me estranho. Basta uma rápida consulta à Wikipédia para confirmar o que já entendia: «(...) observando-se os critérios de justiça e igualdade (...). Ela é uma forma de se aplicar o Direito, mas sendo o mais próximo possível do justo para as duas partes.» No dicionário da Porto Editora são referidas três definições:« igualdade, justiça, rectidão.»

Ocorre-me então que quando os políticos, com todo o seu sentido apurado de gestão (é ironia, claro), falam de Equidade, referem-se não ao conceito em si, mas sim à satisfação do seu interesse e dos «clubes» que lhes garantem a eleição.
Quem trabalhou em empresas do sector privado nunca se apercebeu de qualquer vislumbre de equidade na gestão do país. Apercebeu-se, isso sim, de 50% a trabalhar na selva, que é o mercado, para os 50% do jardim zoológico, que é a instituição pública no seu global. Esta última frase é de algum modo dura e susceptível, mas deixo uma pergunta a todos os que trabalharam no sector privado:

Tiveram alguma vez estas condições de empregabilidade?
- Emprego seguro para todo o sempre - Facilidade para estudar (horas e dias para testes) - Subidas automáticas após términus da licenciatura ou mestrado - Licenças sem vencimento - Possibilidade de transferência para outras áreas do país - Serviço de Saúde quase grátis - Acesso à compra de lentes e óculos para toda a família - «Pontes» e tolerâncias de ponto entre feriados - Ordenados sempre garantidos ao fim do mês, mesmo se o serviço não funcione - Subsídio diário de assiduidade - Acordos com bancos para empréstimos - Aumentos salariais garantidos durante décadas - Sindicatos aguerridos e poderosos a garantir a manutenção e o multiplicar de benesses - Reformas garantidas por inteiro com pouco mais de 30 anos de trabalho - Bónus anuais, mesmo com resultados negativos, etc., etc., etc.

Agora que se diminui este cenário de máxima segurança, tendo em conta a máxima insegurança que se vive no resto do território, não percebo onde cabe aqui a palavra e o conceito Equidade. Se para manter o que era se pede o impossível ao que nunca foi e se chama a tal Equidade, deve haver aqui alguma deformação no termo e no conceito. Ou o dicionário está gralhado ou há uma tentativa de ressignificação da realidade.

Uma boa gestão começa por fornecer condições iguais e distribuídas para todos os cidadãos. Todos, no verdadeiro sentido da palavra. Todos mesmo. Aliás, um pouco como acontece nos países escandinavos.

Estes discursos das chamadas «classes dirigentes» fazem-me consultar o dicionário para verificar se o significado das palavras é ainda o mesmo...