segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Da pata de coelho ao santinho... A sorte espreita


Os amuletos são objectos tramados. As pessoas usam-nos e a maior parte das vezes, nada. Não acontece o que se quer. Afinal, o amuleto não funciona. Muda-se de amuleto. Para uma pata de coelho, um santinho, uma ferradura, uma pedrinha. Pois é. Nada. Estão todos estragados. E então? Não prestam. É tudo uma mentira...

Um dia destes, pus-me a imaginar uma conversa entre um amuleto e o seu dono. Então o tipo põe-se a apelar à pata de coelho que quer ganhar o jogo e conta com a sua ajuda. E a pata a fazer-se de surda. Não responde, nada diz. Mas o indivíduo acredita na pata e descansa, relaxa. Está protegido, pensa.
No dia do jogo, lá se equipa e entra em campo levando o objecto da sua confiança, a pata. Uma hora depois descobre que a pata não funcionou. Perdeu o jogo. E diz para a pata de coelho «vou-te empandeirar, vou arranjar um santinho ou uma ferradura porque tu não me dás sorte».

Mas aí a pata revolta-se pela promessa de separação e desprezo. E começa a falar: «Ouve lá, pá!! Que é que tu queres? Queres ganhar jogos, é?» O tipo, perplexo pela revolta do objecto antes inanimado, responde-lhe apressadamente, «claro, é por isso que ando sempre contigo, pensavas o quê?»

Mas aí a pata enerva-se à séria e responde à letra: «Ó pazinho! Vê lá se te enxergas. 'Tás para aí a dizer mal de mim, o que é que esperas? Por mim, podes ir para o santinho, para a pedra, para a ferradura... Vai para onde quiseres. Garanto-te que não vais ganhar jogo nenhum. Não te vai sair o euromilhões, não vais subir lá no trabalho, não vais passar nos exames... Ouviste bem, não ouviste?»

E o tipo, revoltado, responde, já com os músculos faciais contraídos: «Ai é? Falas assim pra mim, miserável? Afinal eu comprei-te para me dares sorte e tu afinal andas-me a dar azar... Tenho tido só 'caroços' na minha vida. Tu não prestas é o que é, e eu vou-te trocar...»

Mas a pata de coelho não se impressiona e dispara: «Ouve lá, ó cabeça dura! És estúpido ou fazes-te? Olha lá, tu não treinas, só comes, lanças-te aos doces, passas horas sentado e depois queres ganhar jogos a tipos que treinam todos os dias?
Não estudas nada, não te concentras, não te preparas para os testes e depois queres que eu te passe? Só eu é que trabalho, é? Vê lá se fazes alguma coisa, pá!!
Não preenches o talão do euromilhões e queres ganhar? Vê lá se te mexes, pá, em vez de andares a dizer mal de mim e a lamentar-te.
O teu chefe ameaça-te, 'tás arrumado no trabalho e queres que eu te dê sorte contigo a chegar tarde, a fazer o mínimo possível e ainda por cima mal. Que é que tu queres, afinal? Faz-te à vida, pá! Eu só faço alguma coisa se tu fizeres primeiro. Tu andas a brincar e queres que eu trabalhe sem condições?»

O tipo estava perplexo: «Mas estás-me a tratar mal? Eu é que estou à perna com a minha vida toda, é o que é. E tu ainda me desancas... Afinal, para que serves? Nem para me fazer sentir bem...»

E a pata não perde tempo: «Eu desanco-te porque me tratas como se eu fosse tua escrava. Não me respeitas. Nem a ti te respeitas, como podias respeitar-me a mim? Só estás comigo por puro interesse. E depois de tudo o que tens feito mal ou não tens feito sequer, ainda queres que eu te faça sentir bem? Olha, isso só depende de ti, pá. Não venhas procurar estados de espírito em objectos externos. Eu só posso fazer o meu trabalho se tu fizeres o teu.
Olha, faz-me um favor, deita-me fora ou dá-me a alguém que faça alguma coisa e que trabalhe. Gosto é de donos que me dêem gozo de lhes dar sorte. Dos que olham para mim e que empreendem e me levam à luta com eles, me transpiram, me usam. Não quero donos como tu, que ficam só à espera que aconteça sem fazer acontecer. Portanto, tenho o maior gosto que me deites fora ou me dês a outro.»

E assim aconteceu. O até ali dono da pata de coelho, enraivecido com as palavras do amuleto, arremessou-o para longe de si e acelerou o passo, pensativo. Não mais olhou para trás e também não viu quem achou a pata e venceu com ela...