quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A força esmagadora da aparência


A força da aparência tomou proporções que desregularam as sociedades de hoje. Camuflar, fintar, mentir, enganar tornaram-se as principais ferramentas da vivência social. O resultado está à vista de todos. O equilíbrio de forças terá de voltar. A propósito deste tema, permito-me publicar um texto escrito pela minha mãe há cerca de dois anos, num momento de inspiração e de desabafo:  

«Não raro é acontecer que, no meio de um cenário desolador de minas e detritos, surja por vezes algo que nos chama a atenção, precisamente por destoar da paisagem que observamos. Por exemplo, um pássaro de várias cores e lindos trinados, uma flor que teima mostrar-se no auge da sua beleza ou, quem sabe, uma frase muito bela num pedaço de parede. Então, só por estes elementos valeu a pena passar por ali e talvez sintamos coragem e força para começar de novo.

Hoje, os sentimentos nobres deviam, se tal fosse possível, fazer parte do património de um museu... Porque o que nos é dado ver é que quando alguém nos sorri, ou já nos pregou alguma partida ou então vai fazê-lo. Não restam dúvidas que vivemos na época do pechisbeque. O que importa é mesmo dar a impressão de ser o que não somos, e quanto melhor soubermos mascarar o nosso carácter maior será o êxito. Sendo assim, quando nos surge alguém pela frente que é honesto, há tendência para duvidar e então pensamos: ou a sua camuflagem é perfeita, o que nos põe em desvantagem, ou, pior ainda, se for autêntica, torna-se um perigo, porque talvez ele seja o tal pássaro ou a tal flor ou a tal frase, que fica de tal maneira em destaque, que faz ofuscar o cenário à sua volta. E aí depende muito da sensibilidade de quem o observa: ou o admira ou o destrói.

Laura Dias»