segunda-feira, 6 de maio de 2013

Se você mandasse...



Imagine que tinha um poder absoluto, daqueles com que quase toda a gente sonha, quando diz «se eu mandasse...». Por uns instantes, pense nisso.
Uau, o que aconteceria? Tanta coisa, não é? Aposto que começava logo a fazer reparações e a pôr tudo em ordem. Primeiro a sua família, depois os vizinhos, depois o bairro e logo a seguir avançava para a sociedade. Punha tudo na linha, a Justiça, as Finanças, o Governo, os políticos, as leis.

Tirava pessoas de um lado e colocava-as noutro sítio. Ou simplesmente desencaixava umas para colocar outras. Ah, e mais, algumas haviam de ser punidas, para aprender! Dava-lhes uma lição. Presas, açoitadas, humilhadas, postas a andar do país até. E outras haviam de ser premiadas e compensadas... E assim ia ficando tudo como devia ser. Tirava umas coisas a uns para dar a outros... e alguns até ficariam sem nada, pois não merecem pelo mal que fizeram. Outros sim, merecem muito mais do que têm. E você punha tudo na ordem, num equilíbrio extraordinário. Ah, se você mandasse, punha tudo na linha e decerto viver-se-ia muito melhor do que hoje.

É agora que uma voz na sua mente lhe segreda, «podes crer que era assim... se eu mandasse, isto dava uma volta».
E agora pergunte-se: «E depois de estar tudo na ordem, como devia ser?...» Pois é, eu gostava de ouvir a sua reposta. O que faria depois? Mudar-se-ia a si a seguir? Sim, porque o único pedaço de mundo que faltaria para mudar seria você. A sensação de dever cumprido por ter mudado tudo à sua maneira e ao seu gosto só abrangeu os outros. E porque ficaria de fora? Afinal, você é uma pessoa justa, porque não o faria? Claro que aquela voz lhe diz agora: «Eu? por que raio? Se mudasse só eu, nada mudaria, por isso mais fácil mudar tudo à minha volta e à minha maneira, que assim eu viveria mais feliz. Eu e muita gente».

E eu volto a perguntar-lhe: Chama a isso mudança? Porque se você mandasse e mudasse tudo à sua maneira, teria necessidade de fazer alterações em si? Nada. Nada de nada. E agora deixe-me dizer-lhe qual a impressão que tenho sobre o «Ah, se eu mandasse...». Se conseguisse mudar tudo à sua volta, seria uma forma de você ficar na mesma. Uma espécie de mecânica de manutenção, de forma a manter a sua vida como está, uma espécie de fazer melhor o que está a fazer agora, mas nada de especialmente diferente.
O que lhe digo é que, se ambiciona a mudança em alguma coisa, há que dar o primeiro passo, tal qual no atletismo se começa pelo primeiro metro e não no último.

Sim, sim, esta coisa da frase do «mude-se a si primeiro» é hoje um cliché enorme. Já enjoa ouvi-la. O Ghandi disse qualquer coisa como «Seja a mudança que quer ver no mundo» e agora toda a gente repete sem saber o que fazer depois com o raio da frase. Mas a questão é simples, apesar de não ser fácil. Comece por si, dê o exemplo, mostre como é, que é capaz, que consegue e, sobretudo, QUER.
E assim decerto que conseguirá mudar alguma coisa no seu mundo e influenciar outras pessoas perto de si. E assim se inicia uma mudança brutal e profunda, sem aparências nem falsidades.