quinta-feira, 26 de junho de 2014

A armadilha do grupo


A armadilha do grupo é a da conformidade e tem a ver com estar de acordo com a maioria, abdicando do seu próprio caminho. Estar conforme é confortável e dá uma sensação interessante de integração. O problema maior inerente à conformidade é a cegueira. Quando esta toma conta de nós e a ela nos habituamos, achamos que somos assim, passando a assumir uma identidade que não é a nossa. Estamos parados, ao sabor da maré.

Na conformidade não há obstáculos, é tudo previsível, daí a sensação de segurança e conforto. Fomos habituados a rejeitar as objecções. Quando inicia o caminho para o que quer, deve contar com obstáculos, percalços, resistências, pressões. Claro. Começou a fazer um caminho novo, vai encontrar situações novas. Se estou parado na rua, nada acontece. Estou parado. Se começo a movimentar-me, claro que vou encontrar buracos, pedras, esquinas, automóveis, pessoas, postes, placas, muros, portas... É assim. É natural, é sinal de que estou a movimentar-me.

Na vida ainda temos outro tipo de obstáculos: aqueles que não querem que nos movimentemos. Sim, são pessoas. Vai ter de lidar com isso. Vão criticar, induzir ao medo, mostrar consequências negativas, torná-lo invisível, pressioná-lo para que se junte novamente à multidão, para que não se destaque, para que não faça nada diferente.

A multidão admira quem mostra coragem, mas ao mesmo tempo odeia não conseguir fazer o mesmo. E a multidão vai chegar-lhe na boca de conhecidos, de amigos, até de família. Alguns querem-lhe mal, querem que caia, que fracasse. Outros querem-lhe bem, mas têm medo de perdê-lo, de passarem a não fazer parte da sua vida mais tarde. E esses vão também encorajá-lo a desistir, a ser complacente, a não mudar os seus hábitos...

A cegueira que é aceite ou auto-imposta é dos maiores males da sociedade actual. A grande parte das pessoas prefere ser cega. Recusa aceitar a sua verdade, viver os seus valores e fazer o que acha bem para si. O comum das pessoas está sempre a ajustar-se aos outros, ao grupo, à multidão. «Vende-se», aceitando viver vidas emprestadas e arranjando as justificações simplificadas de sempre:

«O que é que se há-de fazer?»
«As coisas funcionam assim...»
«Se não podes nada contra, junta-te a eles»
«Se não faço isto, fico sozinho/a»
«A gente não pode mudar o mundo»
«Não depende de mim»
«Não há necessidade disso»

Na cega conformidade, a armadilha do grupo é a armadilha da mente e às tantas o mundo apresenta-se assim. Limitações auto-impostas. Um dia, já não nos apercebemos que são auto-impostas e não nos lembramos que podemos empurrar-nos para outra realidade. Como disse um dia o filósofo Ludwig Wittgenstein, 

«Um homem ficará encarcerado num quarto com a porta destrancada e que abre para dentro a não ser que lhe ocorra que deve puxá-la em vez de a empurrar».

Se está conforme, nada está a acontecer na sua vida. Se não há objecções, nada se passa. Comece a movimentar-se. Movimento é vida.