quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Viagem ao Interior do Tudo...


Depois de um dia mundano e agitado, todo o sistema se move para a experiência extraordinária prestes a iniciar-se. Os órgãos preparam-se, predispondo-se para o que se segue.
O corpo ajeita-se, toma o seu lugar, acomoda-se, enquanto se traz à consciência os pormenores subtis das articulações arrumando-se. A luz apaga-se, uma sonoridade tranquila, levemente soprada, revela o início.

Uma voz grave indica pausadamente a sequência de passos. Mentalmente, a viagem começa, mas o destino é desconhecido. Ou, por outra, o destino é a viagem sem ponto de chegada. É esse o propósito. Mente e corpo embalam numa sequência de sensações, contracções e movimentos alternados e a paisagem dos sentidos alarga-se. Cada viajante entrega-se à sua própria maneira e dá-se conta do que se passa no seu mundo interior, alheando-se da envolvente.

A cadência respiratória abranda, o som interno silencioso facilita o mergulho, os movimentos unem-se com a neurologia. Os corpos movimentam-se num mesmo espaço, mas a viagem de cada um deles é diferente, mesmo sabendo que a geografia humana é comum.

Apura-se o foco e dá-se conta da presença dos dedos, das mãos, dos braços. Num momento seguinte nota-se a presença das pernas e dos pés. Num outro verificam-se ombros, pescoço e cabeça. Logo de seguida o peito subindo e descendo, tal como o abdómen, ao ritmo da respiração. Anota-se a vida pulsando. Pouco a pouco, a viagem desafia o equilíbrio, a concentração e a determinação. A ligação entre inconsciente e consciente cria como que um campo uniforme e comum dos indivíduos presentes.

A viagem está a meio quando mente e corpo se ligam num só, conscientes da sua unidade. Preparam-se para o ponto de viragem em direcção ao Tudo. O corpo derrama-se no solo, o tráfego mental é sereno. O olhos fecham-se e cada indivíduo sente imergir o Tudo.
Cada viajante sente o profundo silêncio interior por detrás do novo som metálico contínuo. E fica consciente do movimento interno de realidades celestiais ao ritmo das rotações audíveis. É o ponto nuclear da viagem, o momento em que se passa pelo interior do tudo, permanecendo aí num longo e cândido momento. A sensação de que duas dimensões estão ligadas, uma material e sensitiva, outra espiritual e energética...

Momentos passam, momentos que representam lapsos temporais diferentes. O universo em toda a sua existência para o viajante. Voltemos. sim, regressemos ao «espaço ocupado pelo corpo» é a indicação que chega. Cumpre-se, o consciente activa-se, a mente vai despertando...

A pouco e pouco, mente e corpo ensaiam o regresso ao estado inicial, agora em slow motion. Os viajantes acordam, movem-se, espreguiçam-se, oxigenam e sussurram em coro: namaste

Sim, a sessão de ioga com relaxamento está concluída. Cada viajante, cada indivíduo, cada participante, despede-se dos seus semelhantes e retorna ao ritmo cultural e socialmente instalado. Voltará, por certo, para repetir a viagem ao interior do Tudo, com a pura certeza que será diferente...

Obrigado Inês Zorro