Depois de um dia mundano e agitado, todo o sistema se move para a experiência extraordinária
prestes a iniciar-se. Os órgãos preparam-se, predispondo-se para o que se
segue.
O corpo
ajeita-se, toma o seu lugar, acomoda-se, enquanto se traz à consciência os
pormenores subtis das articulações arrumando-se. A luz apaga-se, uma sonoridade
tranquila, levemente soprada, revela o início.
Uma voz
grave indica pausadamente a sequência de passos. Mentalmente, a viagem começa,
mas o destino é desconhecido. Ou, por outra, o destino é a viagem sem ponto de
chegada. É esse o propósito. Mente e corpo embalam numa sequência de sensações,
contracções e movimentos alternados e a paisagem dos sentidos alarga-se. Cada
viajante entrega-se à sua própria maneira e dá-se conta do que se passa no seu
mundo interior, alheando-se da envolvente.
A cadência
respiratória abranda, o som interno silencioso facilita o mergulho, os movimentos
unem-se com a neurologia. Os corpos movimentam-se num mesmo espaço, mas a
viagem de cada um deles é diferente, mesmo sabendo que a geografia humana é
comum.
Apura-se o
foco e dá-se conta da presença dos dedos, das mãos, dos braços. Num momento
seguinte nota-se a presença das pernas e dos pés. Num outro verificam-se
ombros, pescoço e cabeça. Logo de seguida o peito subindo e descendo, tal como
o abdómen, ao ritmo da respiração. Anota-se a vida pulsando. Pouco a pouco, a
viagem desafia o equilíbrio, a concentração e a determinação. A ligação entre
inconsciente e consciente cria como que um campo uniforme e comum dos
indivíduos presentes.
A viagem
está a meio quando mente e corpo se ligam num só, conscientes da sua
unidade. Preparam-se para o ponto de viragem em direcção ao Tudo. O corpo
derrama-se no solo, o tráfego mental é sereno. O olhos fecham-se e cada
indivíduo sente imergir o Tudo.
Cada
viajante sente o profundo silêncio interior por detrás do novo som metálico contínuo.
E fica consciente do movimento interno de realidades celestiais ao ritmo das
rotações audíveis. É o ponto nuclear da viagem, o momento em que se passa pelo
interior do tudo, permanecendo aí num longo e cândido momento. A sensação de
que duas dimensões estão ligadas, uma material e sensitiva, outra espiritual e
energética...
Momentos
passam, momentos que representam lapsos temporais diferentes. O universo em
toda a sua existência para o viajante. Voltemos. sim, regressemos ao «espaço ocupado pelo corpo» é a indicação que chega. Cumpre-se, o consciente activa-se, a mente vai
despertando...
A pouco e
pouco, mente e corpo ensaiam o regresso ao estado inicial, agora em slow
motion. Os viajantes acordam, movem-se, espreguiçam-se, oxigenam e sussurram em
coro: namaste
Sim, a sessão
de ioga com relaxamento está concluída. Cada viajante, cada indivíduo, cada
participante, despede-se dos seus semelhantes e retorna ao ritmo cultural e
socialmente instalado. Voltará, por certo, para repetir a viagem ao interior do Tudo, com a pura certeza que será diferente...
Obrigado Inês Zorro
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