domingo, 19 de junho de 2011

O enterro do «Não Consigo»

Chick Moorman conta uma extraordinária história, passada numa escola primária do Michigan, Estados Unidos. Na altura ele era supervisor e formador e um dia viveu esta experiência absolutamente soberba. Ele mesmo a narra:

«Ocupei um lugar no fundo da sala. Todos os alunos estavam absortos numa tarefa, a preencher uma folha com ideias e pensamentos. Uma aluna de 10 anos, mais próxima de mim, estava a encher a sua folha de "não consigos".
"Não consigo chutar a bola de futebol." ; "Não consigo fazer divisões com mais de três números." ; "Não consigo fazer com que a Debbie goste de mim."

Circulei pela sala e notei que todos estavam a escrever o que não conseguiam fazer.
"Não consigo fazer dez flexões." ; "Não consigo comer um biscoito só."

Nesta altura, a actividade despertara a minha curiosidade, e decidi verificar com a professora o que se estava a passar. Percebi que ela também estava ocupada a escrever uma lista de "não consigos".
Frustrado na minha tentativa de compreender porque os alunos estavam a trabalhar com frase negativas, em vez de escrever frases positivas, voltei para o meu lugar e continuei a observar, decidido a não intervir.
Os estudantes escreveram por mais dez minutos. A maioria encheu a sua página.
Alguns até começaram outra.
Depois de algum tempo, os alunos foram instruídos a dobrar as folhas ao meio e a colocá-las numa caixa de sapatos, vazia, que estava sobre a secretária da professora.
Quando todos os alunos haviam colocado as folhas na caixa, Donna, a professora, acrescentou as suas, tampou a caixa, colocou-a debaixo do braço e saiu. Os alunos seguiram-na. E eu segui os alunos.

Logo à frente a professora entrou numa sala e quando saiu trazia uma pá. Depois seguiu para o pátio da escola, conduzindo os alunos até ao canto mais distante do recreio. Ali começaram a cavar. Iam enterrar os seus "não consigo"! Quando a escavação terminou, a caixa de "não consigos" foi depositada no fundo e rapidamente coberta com terra. Trinta e uma crianças de 10 e 11 anos permaneceram de pé, em torno da sepultura recém-cavada. Donna então proferiu louvores:

"Amigos, estamos hoje aqui reunidos para honrar a memória do 'não consigo'.
Enquanto esteve conosco aqui na Terra, ele tocou as vidas de todos nós, de alguns mais do que de outros. O seu nome, infelizmente, foi mencionado em cada instituição pública.
Providenciámos um local para o seu descanso final e uma lápide que contém o seu epitáfio. Ele vive na memória de seus irmãos e irmãs 'eu consigo', 'eu vou' e 'eu vou imediatamente'.
Que 'não consigo' possa descansar em paz e que todos os presentes possam retomar as suas vidas e ir em frente na sua ausência. Amém."

Ao escutar as orações, entendi que aqueles alunos jamais esqueceriam a lição. A actividade era simbólica: uma metáfora da vida. O "não consigo" estava enterrado para sempre. Logo após, a sábia professora encaminhou os alunos de volta à classe e promoveu uma festa. Como parte da celebração, Donna recortou uma grande lápide de papelão e escreveu as palavras "não consigo" no topo, "descanse em paz" no centro, e a data em baixo.

A lápide de papel ficou pendurada na sala de aula de Donna durante o resto do ano.
Nas raras ocasiões em que um aluno se esquecia e dizia "não consigo", Donna simplesmente apontava o cartaz descanse em paz. O aluno então se lembrava que o "não consigo" estava morto e reformulava a frase. Eu não era aluno de Donna. Ela era minha aluna. Ainda assim, naquele dia aprendi uma lição duradoura com ela. Agora, anos depois, sempre que ouço a frase "não consigo", vejo imagens daquele funeral da quarta série. Como os alunos, eu também me lembro de que "não consigo" está morto.